Nota #1
- Aline Romero

- 30 de ago. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 17 de nov. de 2022
A primeira página da minha mais recente sina. Elaboração de devaneios. Bem, talvez nem tanto. Desde que comecei a me dedicar para produção artística de maneira contínua e séria, isto é, 2019, me dei conta da importância do processo que antecedia o trabalho final. Nem todos artistas enxergam essa etapa como a mais significativa de seu trabalho, mas eu sim. Da mesma forma que não existem regras nem receitas milagrosas que garantem produção contínua e sucesso absoluto. Cada artista estabelece uma rotina de acordo com suas possibilidades de tempo, investimento e disposição. E discorre sobre seu trabalho a partir da sua própria percepção.
Desde 2016 - ano em que algumas chaves viraram para mim, mas eu falo mais sobre isso em seguida - administro a Tamanduá, empresa em que sou proprietária e ceramista. Uma produção lenta, desafiadora e que criou em mim um espaço para me recolocar como artista. Aquelas peças moldadas no barro passaram a servir de superfície, áspera e nada fácil de trabalhar, para pintura. Um despretensioso, porém não descuidado, processo de experimentação na composição das linhas. Simples e objetivas.
Apesar da escolha pela forma simples nas ilustrações da marca, ali já se estabeleciam temas semelhantes aos que eu trago hoje no meu trabalho. E esse é o primeiro item do ponto de vista processual: recorrência dos conteúdos.
Só que antes disso, voltando para 2016, a chave que virou como eu disse lá em cima. Eu trabalhava com criação também, me formei em moda e tentei seguir nessa área. Construí uma marca linda de bolsas. Fazia tudo, da criação e desenvolvimento às finanças, entregas e divulgação. Um formato muito comum para o empreendedor individual. E apesar de puxada não era a rotina que me tirou do eixo e sim, os lugares que eu não alcançava estando ali. Eu precisei mudar. Larguei a moda e a marca.
Eu entendi que precisava elementos que me permitissem criar de forma mais livre. E não é minha intenção levantar debate sobre o espaço de uma criação mais artística dentro da moda. Só me bastava saber que não era esse meu lugar. E o mais engraçado disso tudo - e nada novidade para quem me conhece - é que eu não me lembro porquê pensei na argila como meu primeiro material de estudo.

E embora os primeiros anos de estudo sejam muito mais ligados à prática e compreensão do material, também entrei em consenso comigo sobre algumas questões importantes. Primeira delas é que eu precisava de tempo, não importa qual fosse meu objetivo, que no caso, naquele momento, era modelar uma caneca com uma alça bem aplicada.
Honestamente, se eu escrever aqui que meu objetivo era fazer esculturas ou projetar peças para ilustrar depois, eu estaria mentindo. Minha cabeça, embora inquieta, vive o agora. E aquele agora de 2016, me pedia nada mais do que calma e intimidade com o material que eu escolhi. Essa ideia de traçar metas ou de me visualizar daqui 10 anos não funciona
comigo. Para mim, o plano fica um pouco mais na subjetividade. Na captura de vivências atuais e assim, construindo o plano baseado em possibilidades reais. Muito desse conceito talvez venha do distanciamento da síndrome da urgência e da produtividade compulsiva. A geração de ansiedade vinda desses dois lugares é desnecessária, mas esse assunto daria um texto inteiro só pra ele.
À medida que os desafios acabam, novas necessidades nascem. Agora não se trata mais de aperfeiçoar e sim, de reconhecer dentro daquele repertório todo uma familiaridade. Uma unidade que caracteriza minha forma de trabalho e pesquisa. E é sobre isso esse espaço aqui. Talvez seja uma bagunça de ideias jogadas para todos os cantos. Mas possa ser também, quem sabe, uma forma de expandir as percepções através dessa troca. Porque eu acho, espero muito na verdade, que eu não fale sozinha por aqui!





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